
1. Aniversário no pesqueiro
- E pro Júnior, nada? Tudo! Então como é que é? É pique! É pique… É hora… Rá-tim-bum! Júnior!
- Foi você que programou o paredão pro parabéns?
- Bem ideado, né não, Dadá?
- As luzes deram um grau.
- Falei pra você… a coisa com Ronaldo aqui é profissional!
- Ow, por falar nisso, quando vai liberar o lote da festa na chácara?
- Vai bolo aí, Dadá? Naldo?
- Tô suave.
- Dá aí, Dri.
- Já chego aí, valeu? Os mano querem mais copão.
- Cadê os copão, zé?!
- Vai lá.
- Já comprou o ingresso pra chácara?
- Mas já saiu o lote?
- Você não viu?
- Onde você viu?
- Status, stories, tudo, ué!
- Sei lá por que não estão aparecendo direito as coisas pra mim.
- Depois que acabar, é cinquentinha no dia, cê tá ligada, né?
- Cê’é loko… já vendi aquele vestido pra comprar esse cropped. E pagar o Artur.
- Mas é tonta, a Dadá. Depois de tudo o que ele fez, você ainda paga ele.
- Ah sei lá… Ele ajudou tanto nóis já…
- Ajudou, dizk…
- Não gostei do que ele falou pra você e pro Júnior, mas sei lá…
- Só fez de ajudar pra benefício próprio, por assim dizer. Você não viu o que ele tá fazendo com o Naldo agora?
- O quê? Na loja, você fala?
- Dizk além de tudo ele é o maior carrasco. Só pega no pé.
- Carái, óia o que os meninos fizeram!
- Não!!! No bumerangue isso?!
- Misericórdia! Tá parecendo um calango, a cabeça balançando assim…
- Nóia na batida do funk!
- Vamos, Dri, vai bombar! Abre a live!
- Cabeça de calango nóia na batida do funk!
- Vai, vai, vai! Ele tá lá ainda!
- Promover o meme, é isso?
- É! Vai!
2. na praça
- E aí, zé?
- Ressaca, sei lá.
- Boa, Dri?
- Boa. Levanta aí, Juan, que eu quero sentar do lado do Júnior.
- Peraí, deixa eu terminar de bolar.
- Bolando um na praça o Juan.
- Dá nada não. Colônia Velha, fia.
- Vórta. Só o cheiro já tá dando ruindade.
- Essa praça é que faz mal! Saudades já da resenha de ontem no pesqueiro.
- Vira esse treco pra lá, zé.
- É o “Enzo” na barriga, Júnior.
- Enzo… óia as ideia.
- Vai falar de filho pro Naldo!
- Cheguei, gentê.
- Por que, você fala?
- O Artur. Pegando no pé do Naldo de novo. Por causa do dinheiro que ele não pagou lá.
- Ué! Os filhos nem é dele! Esse Artur só se mete. Se ele não tá contente de ver o Naldo dando duro, fazendo as festas, maior trabalheira. Só porque agora faz uns serviços pra ele, não tem direito de ficar falando essas coisas.
- O Artur falou mal do Naldo?
- A mãe que estava contando. A mulher do Artur veio perguntar umas coisas.
- Que coisa?
- Ah… do dinheiro lá… dos filhos do Naldo.
- Ela estava mesmo mandando umas mensagens pra mulher hoje.
- Ai credo, Deus me livre, vou ter que tentar na granja mesmo. Só sobra trabalho ruim.
- É, seu pai consegue pra você lá.
- É, mas, ai… tudo culpa do Alexandre terem me dispensado da cerâmica.
- Nessas horas a gente vê quem é amigo de verdade.
- As telhas queimaram por causa dele.
- Ele podia ter te avisado.
- Você que saiu prejudicado.
- Tó.
- Não quero, zé. Dor de cabeça.
- Pra mim a brisa até ajuda nessas horas.
- Olha ali o Artur passando de carro.
- Hum. Trocou de carro.
- Cof-cof.
- E a Dadá tonta. Ainda dando dinheiro pra ele.
- Ah… eu também preferi pagar pra não ter encheção de saco.
- Xé! Vocês não têm coragem de peitar que nem eu. Por isso que ele pode ficar aí: desfilando.
- A mãe sempre diz mesmo, que já sabia que o carro era o troféu do Artur.
- O Naldo é tonto de estar nessa. Todo mundo sabe que o favorito do Artur é o Walter. Só acabou ficando com o Naldo porque o Walter não quis.
- Ficou com as sobras, né.
- O pai tá reclamando do Juan também, não é, amor? Que só dá gasto, mais uma boca pra comer em casa. Afê!
- É, só que, tipo… tá difícil achar um trampo.
- Tá foda, mesmo. Não me chamaram ainda. Nenhum.
- E o meme de ontem?
- Você não viu?
- Carái, Dadá!
- Não tô entendendo, gente! Minha conta anda meio zoada. Olha aqui, Juan. Não tá diferente?
- Às vezes é porque você tem contatos novos.
- Mas, tipo, parece que não está atualizando os stories. Olha...
- Credo, esse seu Iphone velho.
- Vai ver que é porque você anda falando com a turma do Artur.
- Ah, sei lá, Dri. Os meninos não tem nada a ver com as coisas que o Artur faz.
- Que tonta a Dadá! Farinha do mesmo saco, fia! Sabem de tudo.
- Se pá até ajudam.
- Colônia Velha é igual curva de rio. Vai, Dri!
- Fala aí, Júnior! Vamos de novo!
- Colônia Velha é igual curva de rio...
- Só para os lixo que o cu engoliu e cuspiu! [Risos]
3. No espelho
- Dadá, você gosta de fofoca?
- Você quase sentou no meu celular!
- Ai… desculpa, fresca! Mas, diz aí: você gosta de fofoca?
- Uuuuh! Quem não gosta, né, louca?
- E de ba-baleia?
- Quê?
- A Dadá caiu!
- Ah xé! Fo-foca e ba-baleia!
- Piada de gago é foda, zé! Boa essa, Júnior.
- Gago tá o meu celular, gente. Olha isso.
- O que é isso? Invasão de alienígena?!
- Que cringe, Dadá! O que você anda vendo pra aparecerem essas fotos?
- Olha essa roupa!
- Peraí! Seu sapato não é igual dessa menina do post?
- Meu Deus, Dadá! Que cringe!
- Gente, como assim? Eu não sei como…
- Bem dizer... gosto é gosto.
- Mas, sério, não tô entendendo…
- Erga a calça pra nóis vê as meias.
- Pffff… Falei?!
- O quê?
- Olha aí, mano. Igual da mina mesmo. Os furinhos e pá...
- Péra. Deixa eu olhar no espelho…
- Dadá do céu! A blusa aberta nas costas! Igualzinho…
- Pffff… agora não adianta tentar disfarçar!
- Faz a pose da menina, faz! Pra nóis vê. Dedinho na bochecha, Dadá.
- Não tá entendendo, dizk.
- Não faz essa cara, Dadá: gu-gu, da-dá!
- Não, Júnior! Não tira foto!
- Já era agora.
- Não!
4. Acordando
- Acorda, Dadá.
- Júnior?! Olha aqui! Minhas costas. A blusa é aberta?
- Claro que não. Num tá boa, é? Credo, a mãe também acordou sonhando.
- A mãe sonhou o quê?
- Sei lá, coisa ruim, dizk. Que nóis tudo periga pagar pela boca.
- Como assim?
- Falou pra nóis não ir na chácara.
- Mas o que é que tem a ver?!
- Ah, sei lá também. Boca… comida… Tipo isso.
- Boca também fala, ué?!
- E também morde!
- Misericórdia! Que viagem, Júnior! Morrer de mordida!
- Ah, mas você entendeu. Boca de fumo... bebidas…
- Nada a ver.
- Ela tá com medo do Artur.
- Ele vai estar lá?
- Das coisas que ele fica aí falando depois.
- É… o Naldo trabalha pra ele né.
- Não sei se ele pegou dinheiro do Artur pra fazer a festa. Ele disse que não, mas não sei.
- Da onde tá entrando essa réstia?
- Que réstia?
- Mexe lá na cortina, Júnior.
- Vai você.
- Afff, menino!
- Levanta, ué.
- Depois vocês falam que sou eu que não saio do celular.
- Que foi?
- Deu ânsia.
- Dadá?
- Tá bem? Oi, menina? Doutora! Doutora, ela tá acordando.
- Oi, Dalva. Tudo bem?
- O que aconteceu?
- Você passou mal na festa.
- Não se lembro da festa.
- Nada, menina?
- Eu se lembro que nóis ia na chácara, mas a mãe não queria que nóis fosse.
- Vocês estavam num aniversário no pesqueiro. E muita gente passou mal.
- Sim, só que isso foi agora de pouco. Anteontem.
- Ih, menina. Não lembra de nada mesmo. Vou avisar os policiais que ela acordou.
- Não, Roberta, ela acabou de acordar.
- Ah, doutora, faz mais de uma semana já, um monte de gente tá querendo entender.
- Uma semana...?
- Roberta!
- Mas doutora, quem mandou essa meninada se meter com essas porcariadas? A doutora não é daqui, mas todo mundo conhece bem a turma com que essa menina andava. Só bebida, festa e porcaria. Deu no que deu. Só sobrou ela.
- Roberta!
- Como assim?! Do que ela tá falando?
- Seus coleguin…
- Vai pra lá, Roberta! Vai! E depois eu aviso os policiais.
- Por que polícia?
- Então, Dalva, suas parentes acabaram de sair. Já, já, elas voltam pra te explicar tudo direitinho. É que você ficou mais de uma semana desacordada, entende? Muita coisa aconteceu.
- O que aconteceu na chácara?
- Na verdade, foi no pesqueiro. Dói aqui? Não? Vocês beberam bastante. Olha pra cima. Pra baixo. Agora pra cá. Isso. E tinha alguma bebida adulterada. Tem um tipo de substância que é muito parecida com álcool, mas que faz mal pro corpo…
- Metanol?
- Isso. Ah, você já tinha ouvido falar? Então, ela causa intoxicação, você sabe...
- E os meninos? O Juan, o Júnior...
- Boa tarde, dona bela adormecida.
- Senhor, agora não. Roberta, eu falei que chamaria os policiais depois.
- Só umas perguntas de rotina, doutora.
- Não, primeiro ela tem que passar por alguns exames.
- A doutora sabe que quando envolve óbito, a polícia precisa investigar se…
- Quem morreu?
- Ela não tá sabendo?
- Entendeu? Com licença, primeiro os procedimentos médicos. Faça o favor, senhor.
- Ah, me desculpe, doutora. Eu não fui informado…
- Sim, eu já entendi. Agora, se me dá licença.
- Tudo bem, estaremos aqui fora.
- Cadê minha mãe?
- Ela já tá vindo, querida. Sim… é uma notícia difícil, mesmo...
- E meu irmão? E o Juan?
- Seu irmão é o Júnior, certo? E o Juan…
- Meu namorado.
- Certo, certo. Então. O seu irmão, a sua amiga Pedrita e o Juan… bem, eles não resistiram. Sinto muito.
- Eles morreram?
- Sinto muito, querida. É por isso que a polícia estava querendo te fazer umas perguntas. Olha, suas parentes voltaram. Beba essa água se conseguir. Ela parece estar em choque. Eu já volto com mais soro e medicamentos, tá bom?
- Isso, na praça da Colônia Velha.
- No dia depois do aniversário?
- Sim.
- Quem estava lá com você?
- O Júnior, o Juan, a Pedrita e eu.
- O que vocês estavam fazendo na praça?
- A gente sempre parava lá. Ficava conversando.
- Sobre o que conversaram naquele dia?
- Ah… normal. Tipo, mexendo no celular. Vendo os carros passarem.
- Pra que ficavam vendo os carros passarem?
- Nada. Só ver mesmo.
- Sei. Passou algum carro diferente?
- Não. O Artur passou de carro.
- O dono da loja de roupas?
- Sim.
- E você lembra o que mais aconteceu?
- Ah… nóis tava falando da chácara. Meu celular estava meio ruim.
- Sim.
- Não estava aparecendo direito as coisas pra mim, tipo, os stories não estavam atualizando. Que nem no sonho.
- Você sonhou com seu celular?
- Foi confuso… acordei assustada.
- O que te assustou?
- As roupas. Eles estavam tirando sarro meu. Apareciam umas coisas cringe, daí o Júnior tirou uma foto minha.
- E depois?
- Meu irmão me acordou. E falou que a mãe não queria que nóis fosse na chácara.
- A festa que o Ronaldo estava organizando na chácara?
- Isso.
- Você chegou a ir nessa festa da chácara?
- Não se lembro. Acho que não. A enfermeira falou que não teve.
- Era o Ronaldo que sempre tomava conta das bebidas nas festas?
- Acho que sim.
- Quem mais o ajudava nas festas?
- Ah, depois que ele começou a fazer uns serviços pro Artur, nóis não sabe se o Artur também ajudava.
- Vocês eram todos amigos do Artur?
- Tipo, nóis gostava de ir nas praças com ele aqui na cidade, quando ele trazia os amigos dele.
- Seu irmão tinha um bom relacionamento com o Artur?
- Sim. Mas de um tempinho pra cá eles não estavam se falando.
- Por quê?
- Ah, teve uns rolos com dinheiro. O Júnior queria comprar as coisas de fazer tatuagem, daí o Artur emprestou. Só que parece que o Artur não gostou do jeito do Júnior. Daí eles bateram boca e o Júnior não queria mais pagar o Artur, porque não achava certo o jeito que o Artur falou.
- Sua mãe falou que o Júnior estava tentando trabalhar pro Artur.
- Sim, mas o Artur não estava gostando.
- O seu irmão fazia que tipo de serviço pro Artur?
- Era pra ele ajudar o Artur com as tatuagens, só que o Júnior estava usando as máquinas pra fazer dinheiro só pra ele mesmo.
- Mas era só serviço de tatuagem?
- Era também pra nóis participar dos encontros sobre moda, só que o Júnior fazia baderna com a Pedrita e atrapalhava.
- A Pedrita também pediu dinheiro emprestado pro Artur?
- Ela disse que ele dava dinheiro pra ela.
- Por quê? Você sabe?
- Ah, não sei bem. Nóis acha que ela gosta dele.
- Você já viu os dois juntos? Sozinhos?
- Não, nóis saía sempre em grupo.
- E ele gostava dela?
- Ah, ele reclamava muito que ela atrapalhava as conversas. Tipo, ela e o Júnior ficavam com as piadas entre eles. O Artur corteava, falava que as risadas deles era de nervoso. Risada histérica, ele falava.
- Parecia que o Artur tinha ciúme do Júnior?
- Ah, não sei também. Mas acho que não, sei lá.
- Com você, ele te chamava pra sair só com ele?
- Sim. Mas, tipo, acho que é porque eu gostava mais das coisas que ele falava. Eu me dava bem com as coisas dele.
- Que coisas?
- As tatuagens e roupas.
- Ele nunca deu em cima de você?
- Ah não, isso não. Nóis se conhece desde que eu era criança.
- Já te deu dinheiro?
- Quando nóis saía, ele pagava os lanches.
- Só lanche?
- De vez em quando, uns copão também [risos] é que nóis amolava ele, né, porque nóis gosta de beber.
- Ele bebia?
- Não. Estava sempre dirigindo.
- Que drogas ele usava?
- Não usava. Dizk já experimentou um verdinho e não gostou muito.
- Ele te dava drogas?
- Não.
- Sei. Tá bom, moça. Por hoje é só isso.
- Quando eu vou poder voltar pra casa?
- Aí tem que ver com a médica, tá bom?
5. Na rodoviária
- A senhora é a médica da Santa Casa, não é?
- Sou sim.
- Ah, nossa...
- O quê?
- Ah não, só é diferenciado isso. Não se vê vocês aqui na rodoviária. Bem dizer, geralmente andam de carro.
- Já deu pra perceber mesmo, todo mundo tem estranhado eu andar de ônibus.
- O marido da senhora não pode vir te buscar?
- Não sou casada.
- Ah sim. Mas tem filhos?
- Não.
[Pausa]
- De onde eu venho é muito comum depender de transporte coletivo. Por aqui, anda-se mais de carro, né?
- Mas aqui muita gente pega ônibus também. Meu menino mais grande vai e volta do serviço com o ônibus da firma. Mas os patrões andam mais de carro.
- Entendi.
- Meu mais novo fez dezesseis e já tá indo de moto pra não depender de ônibus. Ainda mais pra aqueles lados da Colônia Velha.
- Ah... eu já atendi naquele posto da Colônia Velha também.
- É mesmo, doutora? Eu não se alembro. Eu sou de lá e vim morar na cidade.
- Saí de lá antes de fazer a residência.
- A senhora que é bem mais informada, deve estar sabendo o que aconteceu naquele pesqueiro. O metanol... será que não foi coisa do Artur? A senhora que entende bem melhor as coisas que nóis, é letrada a doutora, a turma anda dizendo muito dele. Ele mexe com porcariada, não mexe?
- Andam dizendo muito mesmo desse tal de Artur... Mas por que, afinal, andam falando tanto dele? Ele não é o tatuador que tem uma loja de roupas?
- É, mas não se sabe se - de verdade - é só roupa mesmo que ele vende.
- Como assim? Ele vende com coisas ilegais?
- Muito estranho, a doutora não acha, sempre rodeado de jovens? Pretende que não seja coisa boa. Na Santa Casa mesmo, quantas vezes a doutora não o viu com os meninos lá? Eles sempre passando mal. Sempre com uns papéis na mão, atrás das fichas dos meninos.
- O prontuário, você diz?
- Os registros, não é esse o papel? Esse mesmo.
- Quem te contou isso?
- A Claudiane é minha amiga.
- A recepcionista?
- Ela sempre elogia a doutora que é muito humilde, dizk até cumprimenta os funcionários todo dia.
- É que... eu não fico sabendo dos serviços administrativos.
- Bem dizer, não é só porque a pessoa é bem-vestida que dá pra confiar, a senhora não acha? A doutora é diferente. Dizk ele também é estudado, mas como faz dinheiro assim com tatuagem? Oferece as coisas pra meninada e depois fica mitrando. Vórta!
- Como assim, mitrando?
- Pretende que ele leva pra passear pra lugar longe, sabe, chique? Os meninos ficam em dívida... daí já viu. A cobiça não é coisa que Deus aprova.
- Ele ganha dinheiro com empréstimo, é isso? Tipo agiota?
- Deus que me perdoe pela má palavra, mas a turma dizk a Colônia Velha encheu de pedra depois que ele chegou. Parece tudo uns zumbis, a doutora que já trabalhou lá sabe.
- Você diz craque? Aquele que se acende no cachimbo?
- É dessas que deixa a pessoa em pele e osso. Nunca botei essas coisas na boca, e peço sempre a Deus pra manter meus meninos longe das coisas que vem de baixo. Agora de pouco, o mais novo apareceu com um óculos que mais parecia um espelho colorido. Falei pro meu marido: faça os meninos tirar essa barda, André! O mal tem que ser cortado pela raiz, não é assim, doutora? Vórta urso! Daqui a pouco tá aí... parecendo os maloqueiros do pesqueiro.
- Acho que o ônibus tá atrasado.
- A menina mesmo que se salvou, ela era dessas. E é amiga do Artur. Onde já se viu homem daquela idade tendo amizade com as meninas. E é casado, ainda por cima! Trocou de carro agora, tá com uma nave zero-bala. E as bagunças que eles fazem nas praças? Misericórdia, cada um esquisito que aparece!
- Eu tinha entendido que eram atividades culturais com jogos, palestras...
- Ele anda muito metido na vida da meninada, doutora. Se oferece pra baldear mudança, faz comida de graça, viagem... mas tudo que é de graça tem um preço alto. Bem dizer, nada sai de graça nessa vida. Não se alcança o céu na terra, mas os jovens que não sabe nada da vida fica nessas ilusões de ter as coisa fácil. Tudo tá na mão hoje em dia. Daí cai nessas. Vórta! [pausa] A doutora ri...
- Esse termo, nunca tinha ouvido antes. “Vórta”. Mas não estou te criticando. Gosto de conhecer expressões regionais.
- É... Nóis, pé barrento, tem a fala meio diferenciada.
- Quem são os pé barrento?
- Nóis que é da Colônia Velha. A turma daqui chama nóis assim.
6. No cemitério
- Oi, gente. Eu vim aqui hoje, porque o médico pediu. Ele disse que eu não processei a morte de vocês. Acho que ele tem razão. Pra mim, é como se vocês estivessem vivos ainda. Sei lá se estou em choque mesmo, como ele disse. Dizk tem a ver com eu não ter vindo ao enterro de vocês. Ritual fúnebre, ele falou. E que era pra eu trazer alguma coisa pra deixar no túmulo de vocês. Alguma coisa de que vocês gostam. Ou gostavam, sei lá. Mas eu acho que vocês não ligam pra flores. Então eu trouxe uns posts recentes, tá? Ó, esse aqui é do dia em que o Artur levou uma amiga pra falar de moda. Tá vendo essa blusa? Ela explicou que é mais reta porque tem um significado. Comparou com essa aqui que é mais solta e curta e, tipo... mais colorida assim, a outra é cinza né. Daí, ela perguntou qual que nóis acha que é mais séria. Tipo assim, se nóis trabalhasse na mesma firma das duas e as visse, qual nóis achava que era mais importante, entende, tipo… melhor funcionária. Daí, a maioria achou que era essa da roupa reta. Ela explicou assim, que tem opiniões que não são nossas. Tipo... que nóis pensa o que os outros quer que nóis pense. As coisas mais retas fazem nóis alembrar do que é certo, do pensamento mais racional. Coisa de cabeção, ela falou [risos], se lembrei do Juan nessa hora. Tamanho de cabeça, né amor... Ela falou que tem a ver com a Europa. E a roupa mais tropical faz nóis achar que não é sério, porque nosso pensamento é colonizado. Nas pesquisa dela, um monte de gente acha que o frio é mais chique, mais limpo e mais rico. Ela perguntou se nóis tomava banho todo dia. Todo mundo riu, né, claro ué. Só que não, ela falou que o hábito de tomar banho com frequência nóis herdamo dos índios, não dos europeus.
- Alembra, Dri, uma vez que nóis tava no carro com o Artur? Daí, você comentou “ai, que belezinha um dos filhos do Naldo que tem olhos azuis”. Ele falou assim que nóis tava errado em achar que quem tem olhos claros é mais bonito, alembra? Tipo, não errado... ele falou assim que era colonizado comparar os dois filhos do Naldo pela cor dos olhos. Tipo… você não gostou. Na hora você não falou nada, mas depois você e o Júnior reclamaram. Só que vocês não falavam pra ele. Acho que foi aí que começou a dar ruim entre vocês. Ele explicou que não estava falando mal seu. Eu também não tinha entendido na hora, nóis é meio burro. Só que vocês levavam a mal e reclamavam entre vocês. Só que hoje faz mais sentido pra mim. Tipo... a Colônia Velha é coisa da colonização também. Daí, eu estou pensando em fazer uns desenhos de roupa. A Sinhá Braba também tem a ver com a nossa história, não é só coisa do passado. As mulheres da Colônia Velha não são fracas de intriga, né? Tipo, muito rancorosas que nem a Sinhá Braba da época dos escravos. Agora eu estou tentando aprender com o Artur essa coisa da moda, vamos ver… pena que vocês se afastaram. Vou chegando agora. Depois eu volto.
- Hoje trouxe uma taça pra vocês. O médico falou que só mostrar post não vale, porque não é uma coisa de verdade que nóis deixa. Já tá tarde hoje, mas depois eu volto. Ah! A taça tem a ver com a roupa que estou desenhando, viu? Vou chegando, depois eu volto aqui.
7. Boca larga
- Tarde, doutora.
- Oi, boa tarde.
- Esperando o ônibus.
- Pois é. Tomara que hoje não atrase. Mas aproveitando o ensejo, deixa eu te contar. Averiguei sobre a cópia do prontuário que o Artur pediu lá na Santa Casa. Mas não tinha nada demais, viu? A advogada do rapaz que pediu, o paciente era um dos rapazes que participa das atividades do Artur. Parece que eles são amigos. As páginas do prontuário eram do dia que ele estava afastado do trabalho por causa do acidente de moto. E a advogada precisava incluir no processo do INSS.
- Ah, o menino se acidentou?
- Sim, mas isso já tem uns dez meses. Nada fora do normal.
- Mas a doutora deve estar sabendo que o chamaram na delegacia.
- Sim, ele já foi depor.
- É mesmo? Não fiquei sabendo.
- Pelo visto são as notícias ruins que correm rápido por aqui. E as enganosas também, não?
- Mas se a polícia não tirou nada do homem, é porque aqui nessa cidade são todos corruptos mesmo, doutora. Olha, naquela vez eu não cheguei a contar tudo pra senhora, mas a turma dizk até órgãos o Artur já andou traficando por aí.
- Olha, não conheço pessoalmente esse cara, mas, pelo que fui me informar, o Artur ganha dinheiro honestamente. Ele chegou a abrir B.O. contra calúnia e difamação. Fui até a delegacia pra me informar direitinho. Sabe, esses boatos, é bom a senhora também verificar as informações antes de sair espalhando por aí. A menina do metanol era minha paciente quando a senhora me contou aquelas suspeitas, então tive que verificar.
- Será que inventaram então, doutora?
- Parece que sim. Outro dia mesmo, vieram me perguntar na Santa Casa se eu era lésbica. Sabe por quê? Só porque não sou casada e não tenho filhos. Ao que me parece, senhora, as pessoas fazem deduções demais segundo as próprias experiências de vida.
- Ai, doutora, a senhora vai me desculpar, mas sabe que eu também cheguei a pensar nisso depois daquele dia? Mas então a senhora gosta de homem, não é? Porque a doutora sabe que essa leviandade de hoje em dia não é coisa de Deus. E a doutora é tão bonita, bem-apessoada...
- Tem uma frase que minha mãe me dizia e que ela tinha aprendido com a mãe dela. “Boca fechada não entra mosquito”. Eu penso que essa era uma lição importante na geração delas. Porque, na época delas, as mulheres corriam o risco de perderem o pouco que conseguiam. Então tinham que concordar com tudo e ficarem caladinhas, obedientes aos maridos, aos patrões. Só que as coisas mudam. Eu sou bocuda, briguei muito com a minha mãe por causa disso. Na minha prática profissional, a boca aberta geralmente está vomitando. Botando pra fora um monte de sapo que teve que engolir, a senhora me entende? Um brejo inteiro, melhor dizendo. Mulher não tem que engolir todos os sapos só porque é mulher. Por que a senhora também não começa a ver por esse lado: olha, vale a pena abrir a boca pra defender boas ideias, pra trocar boas experiências, boas conversas, a senhora não acha?
- Ai, doutora, a senhora é bem mais estudada que nóis, só que na prática eu não posso sair falando por aí tudo que tenho vontade. Meu marido, por exemplo, é que a senhora não tem, mas o meu bebe muito, sabe? Nessas horas, é bico calado mesmo! Só abro pra orar pra que Deus guarde meus filhos desse mal caminho. Mas fico a ponto de explodir de raiva, Deus que me perdoe.
- Mas o bico calado também não abre nem pra se alimentar de boas coisas, não é mesmo? Alimento pra alma e pro corpo.
- Fia, mulher que tem boca aberta não é satisfatório, nem pra alma e nem pro corpo. O Jurandir lá da adega, por exemplo, você não ficou sabendo que a mulher dele apanhou tanto que quase deu pt? Parece que estava de safadeza com outro homem, fia. Vê se pode, mãe de três filhos. Agora parece que deu uma sossegada. Mas ainda dizk tá procurando lugar pra trabalhar. É boca-dura, aquela lá, viu? Não se curva, mas come a comida do marido, é ou não é?
- A senhora falando desse jeito parece até que concorda com a violência do marido dela. Na roça, por acaso, está sobrando emprego pras mulheres?
- Ah, mas é duro, fia…
- E pra abrir a boca pra falar da vida dos outros? Ajuda alguma em coisa então?
- Olha, são as histórias que nóis fica sabendo…
- Sabe, eu penso assim, quem só finge ficar de bico calado acaba engolindo sapo do mesmo jeito e depois vomita ressentimento. Um mar gosmento de ressentimento.
- Vou subir nesse hoje, doutora. A senhora vai no outro, não é? Vou chegando, fique com Deus.
8. O cheiro do brejo
- Opah… e aí, gente? Estou vindo de uma oficina do Artur. Nóis precisava escolher uma das fotos. O Artur colocou várias fotos na mesa. Tinha uma que o Júnior ia gostar. Certeza que você ia dizer: “cê’é loko, que top essa moto, viado!”. A foto da menina fazendo self era a sua cara, Dri. Gordinha… Você também não tinha entendido quando Artur falou que o padrão de beleza muda ao longo do tempo, alembra? Ele mostrou umas pinturas antigas das mulheres gordas. Você falou pra nóis que achou forçado ele falar aquelas coisas só pra levantar sua bola, Dri. Que na verdade ele te achava feia, que era tudo fanfique. Mas não era. Hoje mesmo ele voltou a falar dessa história. Porque tinha um zé porvinho lá que começou a zoar a menina da foto, só por ser gordinha. Eu contei pra ele que você e o Júnior ficavam reclamando das coisas que ele tentava explicar. Sabe o que ele disse? Que fazia tempo que ele achava que as nossas atividades não eram pro bico de vocês. É. Vocês fanficaram. Mas por que vocês não levaram junto pro túmulo as coisas que falaram mal dele? Podiam ter levado, não podiam? Ele teve que ir na delegacia explicar o rolo todo do dinheiro. Zé porvinho estava achando que ele tinha envenenado vocês. Só que agora, Dri, você morreu. E a história que ficou viva é de que você que tinha problema psicológico com sua mãe. Você dizia que tinha nojo dela, alembra? Disso todo mundo é testemunha. Do jeito que ela ficava atrás dos machos. Só que você fez pior. Não achou satisfatório o Artur não gostar seu? Precisava meter o louco com aquela história do dinheiro? Você fanficou. Ele mostrou tudo as conversas pra polícia. Ele não estava tentando te subornar, né, garota? Ele ficou com dó seu, achando que o dinheiro era pra sua irmãzinha. Pegou emprestado e ainda por cima não pagou. Fanficou total, Pedrita. É. Vocês tudo gosta de fofoca. E eu de ba-baleia, não é isso? Vocês tudo dez-barra-dez. Eu Dadá: gu-gu, da-dá.
- Que seria de mim se vocês ficassem vivos? Vocês me botavam de lado. Sempre era: a tonta da Dadá, Dadá burra, Dadá cringe. O Júnior tonto ia sempre na onda sua, Dri. O Juan sempre atrás dos meninos: “Os maluco tão me chamando, amor”, “Então, zé, não posso ir porque a Dadá não deixa”, “Vou lá fumar um nargas com os mano, amor”, “Chama sua prima pra você não ficar sozinha, amor”, “Só rolou uns baseado, pá... um bilhar, depois nóis voltou direto, amor... juro”. Eu ia sondar e nunca era nada daquilo.
- E nessas hora, o Júnior e a Pedrita ficavam naquele joguinho, se achavam tão espertos com aquelas palavras bestas. Risada de gente histérica, vórta! “Colônia Velha é igual curva de rio. Só para lixo que o cu engoliu... e cuspiu!”. Ha. Ha. Ha.
- Qualquer coisa que o Artur falava, vocês achavam que ele estava falando mal de vocês. “Eles não são o umbigo do mundo, mas só o olhavam pro próprio umbigo”, ele disse. É. E quando ele falava normal comigo, vocês falavam que ele tinha dó meu. Ressentimento: não é assim que se chama isso que sai da boca de vocês?
- Só que agora a boca seus está calada como um túmulo. E eu não preciso mais engolir brejo. Nem sapo. Nem sequer uma pererequinha.
- Aliás, por falar nisso, eu escolhi essa foto do brejo. Quando foi a minha vez, falei que era porque me fazia pensar nas calças de boca-larga. Boca-de-sino, tá ligado? Meu conjunto tem a ver com isso. Amanhã trago o desenho. Calça de boca-larga e cropped de meia-taça.
9. Dizk me disque
- Miga, você viu a menina do metanol passando?
- Aquela lá? Ih… perco meu tempo não. Tá se achando só porque virou a queridinha do Artur.
- Sério mesmo que aquela uma outra inventou a história do suborno porque estava a fim dele?
- Comia bosta por ele, dizk. E a polícia confirmou, viu?
- Miga, que horas acaba seu turno hoje?
- Comecei agora de pouco, linda. Hoje é noturno. O hospital está cheio, olha aí.
- Vocês aqui trabalham feito homem, credo. Fica parecendo os homens da granja fazendo turno de noite.
- Beijinho no ombro, miga! Melhor isso que ficar aí, que nem certas pessoas, desocupada, só cuidando da vida dos outros.
- Uuuuh! Era pra doer? Você vem aqui na rua pitar o cigarro pra quê? Capái mêmo.
[risos]
- Nem te conto, agora de pouco a Claudiane tomou um fumo da doutora.
- Sério?!
- “Homofobia é crime”, dizk.
- Hum, pra defender essa gente, deve ser sapatão mesmo, vórta.
- Um mulherão desse, cheia da grana… perdendo tempo correndo atrás das borboletas. Vórta.
- Melhor assim, boba. Sobra mais macho pra nóis. Encontrei duas vezes ela na rodoviária. Parecia humilde no começo. Só que depois veio dar lição de moral. Uuuuh, vórta urso!
- Ai, essa turma da cidade é assim. Não gosta de desaforo. Sou nem tonta, estou sempre no meu melhor sorriso.
- Roberta não perde uma. Essa mulher... Veneninho escorrendo: limpe, bonita!
- Uuuuh! Num tá boa, é? Da minha boca só sai verdade. E seu marido?
- Ele está lá, enchendo a cara na adega do Jurandir. Estou indo lá, ver se boto um pouco de juízo na cabeça desse homem. Dizk viu a menina do metanol conversando com os mortos. Será que é coisa do Artur? Só pode ser, não, essas esquisitices de gente da cidade?
- Pior que não, miga. O psicólogo daqui que mandou ela ir lá. Pra fazer o luto, dizk.
- Misericórdia. É cada uma, não? É de Sorocaba esse psicólogo também, Roberta?
- Por que o interesse, miga? Achou bonitinho, é?
- Num tá boa, é? Pegar pra criar?
- A Claudiane dizk ele gosta de outra fruta, miga.
- Sabia! Tão educadinho, só podia mesmo.
- Mas é esquisito aquela menina, não? Parece que nem caiu a ficha ainda que perdeu o irmão, o namorado e a amiga.
- Mas você viu que ela estava com as roupas dos defuntos?
- Levando pro cemitério?
- Vestindo!
- Se-nhor! Deve estar mexida das ideias. Só por Deus!
10. Roupa de defunto
- Zé porvinho veio me encher hoje por causa da roupa. Saco-cheio já… Mas o que vocês acham? Sua calça cargo não me cai bem, Júnior? Fiz uns ajustes, ó. Tipo, ajustei na coxa pra deixar só a boca mais larga, entendeu? Cortei as alças do seu cropped, Dri. Virou meia-taça.
- Trombei com o Alexandre hoje também. Outro que teve que ir na delegacia por causa seus. O encarregado foi junto pra reforçar as explicações. O forno era tarefa seu, Júnior. Agora todo mundo sabe. Você morreu, mas não levou a verdade pro túmulo. A história cobrou justiça, menino. Nóis caiu na sua fanfique. Dizk era ele que devia ter avisado que as telhas iam queimar. Você tava dormindo, a câmera gravou tudo. Acha que os outros ganha pra te acordar no serviço?
- Mas tadinho seu também, Júnior. A vida não estava boa pra você ultimamente. Sempre foi o rei em casa, o queridinho da mamãe. Continua sendo, aliás. A mãe está um trapo por causa seu, o bebê dela. Xé, fica largadona na cama, nem parece que a filha dela sobreviveu. Vai se mandar da Colônia Velha, dizk. Capái mêmo. Fala tudo da boca pra fora só, vocês sabem. Mais fácil eu me mudar de lá e vir morar na cidade.
- Olha aqui, Juan, meu amor. Transformei seu agasalho no meu sobretudo. Este símbolo nas costas não é de porta de banheiro feminino, ô burro! É mais antigo. É sobre mim: a Dalva. Sobretudo Vênus, a ânima mais animosa dos deuses gregos, a mais desejosa! Será que porque ela também era assim órfã de mãe? Nasceu do pênis cortado fora, dizk. “Ah, bruta flor do querer… ah, bruta flor... bruta flor…”. A mulher da Lua dos índios brasileiros. Ainda bem que você se foi jovem, amor… diz a lenda que de todo jeito eu te deixaria. Como é que os mano diz, amor? “Boa, zé, bora metê o loko! Botá marcha nos desejo! Vida loka...”. Júnior e Pedrita, não eram vocês que gostavam de dizer quando dava bom pra mim? “Óia aí, zé... nóis que num ‘dalva’ nada pra Dalva”. Agora é dez-barra-dez, queridos, beijinho no ombro! Trocadilho besta, “ num ‘dalva’ nada pra Dalva”. Dalva é estrela, bebê, é 5K!
- Mas a Dalva não é má. A Dalva leva vocês juntos. Sempre. Nóis vai hypá hoje, cês tão ligado? O Artur vai gostar. Ele entende o que vocês não entenderam aí das coisas da estrela, do nome, do desejo. Tira essas cara de cu! Partiu apresentação!
11. Boca alimentada, estômago mais tranquilo
- E aí, Dadá?
- Boa, Naldo?
- Boa. Parabéns pelo desenho. Arrasou lá os cortes das roupas.
- Obrigada.
- É uma forma bonita de homenagear a turma.
- Que bom que gostou.
- Sim. Bem dizer, uma forma de continuarem vivos.
- Então.
- É. Você ficou bem, parece, né?
- Fiquei. Fazer o que, né?
- É. Vida que segue.
- É.
- Falar a verdade, no começo fiquei boladão. Me senti mó mal, tá ligada, porque tive mais raiva no começo, sabe? Mais raiva do que, tipo... tristeza, pá...
- Ah é?
- É, porque… tipo assim, deixaram uma bomba pra explodir no meu colo, né. Os bagulho da polícia.
- Ficaram no pé do Artur e do Alexandre também.
- Tô ligado. Só que sua mãe falou umas coisas mó nada a ver lá… que, tipo… achava que o Artur usava nóis tudo pra ganhar dinheiro de forma errada, pá… tá ligado? E que eu e ele queria se livrar deles. Óia as ideia!
- Então. Fiquei sabendo. Vieram me perguntar uma pá de coisa quando eu estava no hospital também.
- Só que como fui eu que organizei o aniversário, eu era o principal suspeito de ser comparsa do Artur. Mano, a turma acha que só porque o cara não é daqui e vive de um jeito diferente ele faz coisa errada.
- Nem fale mesmo.
- Tipo, só porque ele estava no meu pé pra pagar a pensão dos meu filho direitinho, a turma estava achando que ele queria me controlar através do dinheiro. É que você sabe como ele é, ele não gosta que nóis fica devendo pros outro. Ele fala que isso é barda feia da Colônia Velha, usar os recursos dos outros como se fosse da pessoa, pá… O cara tem cultura, né, tipo… não quer andar com gente que fica aí devendo pros outro.
- Então era só por causa disso? Do jeito que o Júnior e a Dri falavam, parecia mesmo outra coisa.
- Mó zuada essa história.
- O que deu na polícia então? Nada?
- Nada. Era alguma garrafa que estava batizada. Como é que nóis ia saber. Aconteceu em tudo que é lugar.
- Pois é.
12. Vômito final, brinde do começo
- Acho que vou demorar pra voltar aqui de novo. Vocês não me levem a mal. Mas é que, bem dizer... minha alma era meio vazia enquanto vocês estavam vivos. Só que, aos poucos, as coisas estão melhorando.
- Como é que eu explico? Ó, nóis assistiu um filme lá com o Artur. Tinha umas carpideiras que ficavam chorando em cima da moribunda, uma velha. Quando a ricaça morreu, elas tudo correram pra dentro do casarão e saquearam as coisa dela. Sofá, joias, naquela época não tinha televisão. Eu era rasgada pra comer, alembram? Minha boca larga… Só que agora estou bem alimentada. Canibalismo é coisa de selvagem. E vestir a roupa dos que se foram é uma forma de luto mais civilizado. Agora terminei meu luto. Não preciso mais voltar aqui. Meu peito está farto de vida, alimentado. Meia-taça cheia. Foi só uma gotinha de metanol. No meu copo, estava diluído.
- Vocês me entendem, não é? Eu jamais poderia continuar vivendo se tivesse que me separar de vocês. Mas também não conseguia me ajuntar... vocês não deixavam, eu não acompanhava. A Dadá tonta, Dadá burra, Dadá cringe. Era uma gota d’água pra mim e eu não aguentaria. Ou... uma gotinhazinha só pra vocês. Foi meu jeito artístico de estar farta de vocês. Eu não queria pirar igual a mãe. Viver malfalada que nem a vó. Não preciso mais se empanturrar de comida. Meu vazio não era fome, hoje eu sei. Me sinto até bem vivendo na Colônia Velha. Nem fico mais pensando em se mudar. Eu sinto que a Colônia me pertence e eu pertenço a ela. E vocês pertencem a mim, claro, estão em mim para todo o sempre, amém. Mortos, boca fechada como um túmulo. Eu posso dizer. Nóis pode dizer. Com propriedade. Sobre a Colônia Velha. Que nóis é herdeiro do seio mau dela, da Sinhá Braba. Ressentida, maldosa, cruel. Batia nos escravos, vórta! Nossa carne é feita daquele brejo fedido. Que a boca larga precisa vomitar, de tanto sapo que engoliu. Mulher sofre na nossa sociedade. A turma lá do Artur adorou essa parte. Falaram que nóis entendeu a natureza da coisa. A herança cultural. Tudo simbolicamente. Vocês não tinham condição de alcançar esses pensamentos, né? Não era pro bico de vocês, alembra que o Artur falou? Como eu ia pertencer ao grupo dele se ainda tinha vocês? Não tinha condição de deixar vocês. Não dava, né. Vocês teriam feito o mesmo. Vocês sabem. Nóis sempre foi uma pessoa só. O adubo das terras da Colônia é a podridão do brejo, os sapos vomitados das bocas abertas ressentidas. Peito esvaziado, pele e osso igual os nóia da Colônia. Frieza do machismo. Essa parte a turma também gostou. Falar em machismo. O Artur falou que eu incorporei bem os conceitos. "Incorporei a memória viva de vocês que morreram". Tem coisa que é velha, porque é ancestral. Ancestral não é só elogio. É a coisa do DNA cultural. Ele disse que eu entendi na prática, coisa que muito doutor de canudo não entende. O cara lá, amigo do Artur, disse assim que a palavra histeria significa útero vazio. Algo a ver com a energia criativa feminina, tanto no homem como na mulher, só que na qualidade de quando não está muito bem alimentada. Faz sentido, vocês não acham, a risada sempre histérica de vocês? Sempre atrás dos hype, atrás das troça, da risada dos outros pras gracinha, dancinha, piadinha. Vocês também precisavam se alimentar. Que dó seus também. O seio e o útero eram vazios e secos. Como o meu um dia já foi. Agora vocês pertencem ao útero da terra. Alimentando nossa Colônia Velha! Ê Colônia Velha! O espírito meu e seu é uma coisa só. Da mesma carne. Do mesmo vômito. É nóis... tamu junto.
Graziele Ferreira, outubro de 2025.
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